segunda-feira, 2 de junho de 2008

Desejo e Reparação

“You can only imagine the truth”
(“Você só pode imaginar a verdade”)



Poucos filmes merecem discussões e longas conversas de botequim acerca de suas histórias. Contudo, quando merecem, não podemos perder a oportunidade de comentar e abrir o debate sobre suas qualidades e afins. Ou no caso, postar meus comentários em um blog frio e distante do espaço virtual.
Não existe no panorama literário atual nenhum autor ou autora que tenha proporcionado tanto marco na literatura norte-americana e/ou inglesa, e consequentemente mundial, por suas qualidades de escrita e narração de histórias cativantes, como houve outrora Jane Austen, Ernest Hemingway, Lewis Caroll, enfim, autores que foram, sem dúvida, discutidos, venerados, e no cinema, adaptados.
Na trilha do sucesso desses grandes novelistas, figuram, contemporaneamente, inúmeros escritores que tentam de várias maneiras serem tão geniais quanto seus predecessores, como, por exemplo, o já consagrado José Saramago. Mas o caminho se intensifica para Ian McEwan, autor de Atonement (Reparação é o título nacional do livro). Após alguns romances, McEwan era tido pela crítica britânica como um bom escritor (suas histórias já eram conhecidas como instigantes e reflexivas), contudo entediante. Mas Atonement eliminou o tom rude dos críticos para com ele. Em seu romance épico passado ao longo da segunda guerra mundial, tempo difícil para se erigir uma história, a narrativa acompanha o olhar aflito e mimado de Briony Tallis, filha caçula de uma família tipicamente aristocrata que, com uma imaginação extremamente fértil, característica dos que se aven
turam pelo mundo da escrita, vê sua irmã Cecília se despir na frente do caseiro Robbie. Obviamente, a pequena Briony não sabia que sua irmã era uma moça a frente do seu tempo, desafiadora das rígidas imposições sociais acerca da figura feminina que podavam as mulheres no início do século XX. E principalmente, ao flagrar Cecília ensaiando um sexo desajeitado na biblioteca da mansão com Robbie, ainda muito pequena, não podia imaginar que aquilo era amor. Se sabia, entretanto, nutria uma paixão platônica pelo namorado da irmã, mas não poderia supor que seu possível ato de um quase ciúme causaria tanta tristeza.
Questionando a inocência, os sentimentos, as relações sociais em época tão conturbada entre guerras, mas principalmente a verdade de cada um, Ian McEwan deixou todos os críticos literários aos seus p
és, pois com uma história forte e contundente questionou o seu próprio papel de escritor e a função da escrita. Além disso, usando de vários cortes e elipses temporais, ele mescla as diferentes percepções e pontos de vista da história que Briony acompanha e dos envolvidos efetivos no caso criando, além de uma narração, uma discussão intertextual que permeia todo o crescimento da história. Ou seja, o escritor discute a noção estética e a criação ficcional da narração, a partir da própria análise dela.
Minha análise é um exemplo, embora muito superficial, de quão complexo é a escrita de McEwan. Tente imaginar tantos detalhes, descrições e propostas sendo adaptadas para a estrutura de um filme. Pois é, foi o que aconteceu em 2007. O filme Atonement ficou a cargo da direção de Joe Wright, que havia anteriormente comandado a adaptação do romance Orgulho e Preconceito de Jane Austen. Wright realizou a
árdua missão de transformar palpável todo um universo de questões existenciais, sociológicas e filosóficas propostas pelo livro, e conseguiu; Desejo e Reparação, nome que a película recebeu no Brasil, foi um dos filmes mais aclamados pela crítica no ano passado, concorrendo a sete prêmios Oscar – incluindo melhor filme – e abocanhando dois Globos de Ouro (melhor filme e trilha sonora) e dois Baftas (a versão britânica – e menos tendenciosa – do Oscar), o de filme e o de direção de arte. Mesmo com um currículo de premiações invejável o filme foi injustiçado: merecia muito mais. A direção de Joe Wright foi fundamental para o sucesso do filme associado ao roteiro adaptado por Christopher Hampton. Tal união pôde proporcionar uma das melhores adaptações literárias do cinema contemporâneo, sendo eleita por vários críticos como praticamente perfeita. Realmente, é quase unânime tal apontamento, pois o ambiente composto, tanto de história, quanto de debate, por McEwan é fantástico e muito peculiar, afinal, como adaptar visivelmente uma história, sendo que a discussão dela é justamente a diferença dos pontos de vistas e com isso das distintas versões da verdade?
Tudo isso foi recriado com meticulosidade e fidelidade à história com apoio de uma fotografia fabulosa, uma direção de arte impecável, um elenco afiadíssimo (com a presença de Keira Knightley, indicada a estatueta máxima por Orgulho e Preconceito, com isso se tornou “musa” do diretor, James McAvoy, um ótimo ator em franca ascensão, Vanessa Redgrave, veterana já há muito consagrada e a surpresa mirim, Saoirse Ronan, que incorpora Briony de uma maneira muito intensa, pouco vista no cinema. A menina, literalmente dá “vida” a personagem da história – tanto que por sua in
terpretação foi indicada ao Oscar) e a trilha sonora composta por Dario Marianelli agraciada com o Oscar deste ano, que mescla barulhos de uma máquina de escrever as músicas, criando um ambiente único para a narrativa, afinal, estamos falando entre outras coisas, fundamentalmente, do ofício da escrita e suas implicações (em qualquer instância).
Não pretendo estragar todo o discorrer da história do jovem casal Cecília e Robbie, que acabam sofrendo pra vida toda por conta da má interpretação que Briony faz acerca do relacionamento deles a partir de um episódio lastimável e conturbador na rotina da abonada família Tallis. Mas vale lembrar que atonement em inglês significa expiação, isto é, a tentativa de se redimir de culpa a partir do sofrimento das conseqüências, ou seja, a busca da “protagonista” Briony é de se livrar da culpa que ela passou
a carregar a partir do momento que estragou vidas envolvidas em uma grande história de amor.
Além de todas as discussões que emergem tanto no livro, quanto no filme, sem dúvida, livrarmo-nos das culpas e tentarmos encontrar uma maneira de nos redimir acerca de tudo que fazemos de errado e perceber as coisas como elas, talvez, sejam para os outros – não a verdade coletiva, mas a verdade para cada um, isto é, a
liberdade do indivíduo – é um dos motivos da existência humana, senão, o maior. E por isso que a obra contemporânea de Ian McEwan se prostra tão grandiosa perante a história da literatura e certamente se iguala aos grandes nomes da escrita, e por isso também que o filme se posiciona como uma das melhores adaptações literárias do cinema atual.
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